


"A escala tem 12 domínios (energia, papel familiar, linguagem, mobilidade, humor, personalidade, auto-cuidado, papel social, raciocínio, função de membro superior, visão e trabalho/produtividade) elaborados a partir de entrevistas com indivíduos hemiplégicos que identificaram áreas comuns afetadas pelo AVE. (...) Ao todo, os 49 itens são distribuídos dentro destes 12 domínios. Três possibilidades de repostas foram desenvolvidas em uma escala likert com escore de um a cinco: (1) grau de concordância com afirmações sobre sua funcionalidade, variando de concorda fortemente a discorda fortemente; (2) dificuldade na realização de uma tarefa, variando de incapaz de realizar a tarefa a nenhuma dificuldade; (3) quantidade de ajuda necessária para realizar tarefas específicas, indo de ajuda total a nenhuma ajuda necessária. (...) O ponto de referência para resposta de todos os itens se refere à semana anterior. O ponto de referência para todos os itens se refere à semana anterior. (...) Se aplicada em uma população mais deficiente do ponto de vista funcional, talvez pudesse ser observada uma melhor distribuição dos indivíduos, cobrindo os níveis inferiores da escala."
E conclui que, a EQVE-AVE é um instrumento de mensuração da QVRS clinicamente útil por cobrir domínios comumente afetados pela entidade clínica em si e outros relacionados aos componentes de função corporal, atividade e participação, além dos fatores ambientais cobertos pela CIF e que são fundamentais na identificação do impacto do AVE na vida dos pacientes. Ele observou adequada estabilidade dos itens e indivíduos, além da apropriada distribuição dos itens, difíceis e fáceis. Porém, no seu estudo, ele adverte que se deve ter cuidado na aplicação e interpretação dos itens verificados como erráticos da escala, de forma a comprometer a validade do constructo.
por Aryostennes Miquéias
REFERÊNCIA: GOMES NETO, MANSUETO. Aplicação da Escala de Qualidade de Vida Específica para AVE (EQVE-AVE) em Hemiplégicos Agudos: Propriedades Psicométricas e sua Correlação com a Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde. 2007. 77f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Reabilitaão) - Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo horizonte. 2007.

Esta frase, título do capítulo 5 do livro de Robert Lent - Cem Bilhões de Neurônios, expressa um fato muito estudado e questionado, o de as células do sistema nervoso serem dotadas de uma plasticidade, que se declina com o desenvolvimento, mas não se extingue, de forma a exibir ainda a capacidade de se reorganizar em resposta a estímulos ambientais. Os animais recém-nascidos estão submetidos à plasticidade axônica ontogenética, uma vez que seus axônios se desenvolvem sob controle e influência do ambiente. Durante a fase de remodelação dos axônios, ocorrida normalmente durante o desenvolvimento, ocorrem mecanismos progressivos e regressivos que participam na programação dos circuitos neuronais. Determinadas habilidades e comportamentos se estabelecem a partir de experiências interativas com outros da mesma espécie e em períodos ditos críticos, nos quais a remodelação neuronal acontece mais dinamicamente . A espinha dendrítica é tida como a sede estrutural da plasticidade sináptica. A capacidade de adaptação do SN, especialmente a dos neurônios, às mudanças nas condições ambientais ocorrentes no dia-a-dia dos indivíduos, chama-se neuroplasticidade, seu grau varia com a idade e tem valor compensatório. As transformações neuronais nem sempre restauram funções perdidas, às vezes produzem funções mal-adaptativas ou patológicas.
Convenciona-se que não há possibilidade de reposição numérica espontânea de uma população neuronal e, apesar de se postular atualmente, a hipótese de que o microambiente do sistema nervoso seja desfavorável ao crescimento regenerativo, verifica-se a formação de sinapses funcionais que interferem diretamente no desempenho do SN, adaptando o organismo a condições externas. Em lesões do corpo celular, as células provavelmente morrerão, mas as com apenas prolongamentos danificados podem regenerar-se. Os axônios lesados facilmente encontrarão os alvos se a lesão tiver ocorrido próximo a eles. Quando a lesão é distante do alvo, sem interrupção completa, a estrutura degenerada do coto distal fornece um arcabouço para o crescimento. Em lesões nervosas completas e distantes dos alvos a regeneração se frustra.
Na vida adulta vigora o dogma da neurobiologia de que os neurônios não proliferam, porém, Ramachandram, estudando a sensibilidade de membros fantasmas, verificou a existência de uma plasticidade axônica nos adultos, ao observar que, em algum ponto do sistema somestésico do amputado os axônios que estariam normalmente representando uma área estenderam-se a regiões de representação da extremidade amputada; processo ocorrido provavelmente pelo brotamento lateral. Outra hipótese seria o aparecimento de circuitos axônicos silenciosos. A transmissão de mensagens entre os neurônios é um fenômeno regulado pelas circunstâncias, a plasticidade sináptica se dá pelos processos de: habituação, pelo qual a resposta reflexa reduz com a repetição do estímulo; sensibilização, que se refere ao aumento da resposta quando precedida por um sinal de aviso; e condicionamento clássico, que corresponde à aprendizagem a um único estímulo de forma a reduzir ou facilitar a transmissão sináptica, todos estes diretamente relacionados á aprendizagem.
Diz-se que no sistema nervoso central a regeneração é bloqueada pelas células da glia, estas sintetizam proteínas com efeito inibitório do crescimento axônico, por isso se entende que lesões do SNC provocam a morte da maioria dos neurônios atingidos. Estudos mostraram que a adição de laminina a quase totalidade de neurônios motores se regeneraram, mas apenas metade dos sensitivos sobreviveu e regenerou. A plasticidade dendrítica parece depender de um plano geral codificado no genoma do neurônio característico deste. Nos adultos a plasticidade dendrítica estrutural se restringe às espinhas, estas são regiões fundamentais para o estabelecimento e a consolidação da memória. A plasticidade somática é entendida como a possibilidade de alteração da capacidade proliferativa ou da morte de uma população neuronal em resposta a interferência do meio exterior.
A função da atividade proliferativa residual do SNC permanece desconhecida, mas a comprovação de sua existência abre a possibilidade de se estudar evidências de algumas populações neuronais dotadas dela, as células-tronco. A neuroplasticidade nem sempre leva a restauração funcional, ao contrário, pode levar a resultados mal-adaptativos e danosos ao indivíduo. Benefícios compensatórios da plasticidade são: ativação de circuitos silenciosos, estabelecimento de conexões transitórias, brotamento lateral de axônios vizinhos às regiões lesadas ou inativas, além de diferentes combinações destas possibilidades.
Portanto, entende-se que o argumento primordial para se explicar os efeitos, muito bem conhecidos, da fisioterapia neurofuncional, é o conhecimento desta capacidade do sistema nervoso. Ser cônscio de que a habilidade de reprogramação dos circuitos neuronais será a responsável pela recuperação do indivíduo, cabe então ao terapeuta a segurança em oferecer o estímulo externo adequado, para que a neuroplasticidade se efetue da maneira correta, de forma a impedir o que Lent expressa como “os efeitos maléficos da plasticidade neural”.
Por Aryostennes Miquéias