sábado, 31 de julho de 2010

VALE A INDICAÇÃO (3): ESCALA ESPECÍFICA DE QUALIDADE DE VIDA NO AVE

A OMS define Qualidade de Vida como sendo a percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, dentro de seu contexto cultural e em relação a seus objetivos, expectativas e padrões sociais, mas vale destacar que ainda não existe uma definição consensual para o termo. Conceituações a parte, é inegável que a meta final da fisioterapia é melhorar a qualidade de vida daqueles que recebem algum atendimento fisioterapêutico. Logo, faz-se necessário a utilização de instrumentos que mensurem a qualidade de vida dos indivíduos, podendo-se, assim, avaliar as repercussões dos procedimentos terapêuticos aplicados na qualidade de vida dos nossos pacientes.

Por isso, gostaria de indicar a Escala Específica de Qualidade de Vida no AVE (EQVE-AVE). A EQVE-AVE é composta de 49 itens distribuídos em doze domínios, apresentando três possibilidades de repostas desenvolvidas em uma escala likert com escore de um a cinco. Para cada domínio utiliza-se uma opção de resposta, sendo que a opção de concordância ou discordância será utilizada para os domínios energia, papéis familiares, humor, personalidade e papéis sociais. Nos domínios de linguagem, mobilidade, memória/concentração, função da extremidade superior, visão e trabalho/produtividade, a opção de resposta, dificuldade na realização de tarefa deve ser utilizada, já a opção quantidade de ajuda necessária é utilizada na pontuação dos itens do domínio auto-cuidado. Em minha opinião, o grande diferencial da escala é sua especificidade, uma vez que é direcionada as particularidades e domínios mais afetados pelos pacientes após AVE.

Para os mais curiosos, indico a leitura da dissertação de Mansueto Gomes Neto intitulada Aplicação da Escala de Qualidade de Vida Específica para AVE (EQVE-AVE) em hemiplégicos Agudos: Propriedades Psicométricas e sua Correlação com a Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde.

Vale a indicação!!!

Por Renan Guedes

quinta-feira, 29 de julho de 2010

EXCITOTOXICIDADE GLUTAMATÉRGICA


O Ácido Glutâmico ou Glutamato é um dos aminoácidos codificados pelo código genético, atuando como neurotransmissor excitatório do sistema nervoso, sendo o mais comum em mamíferos. O impulso nervoso causa a libertação de glutamato no neurônio pré-sináptico. Na célula pós-sináptica, existem receptores que ligam o glutamato e se ativam. Pensa-se que o glutamato esteja envolvido em funções cognitivas no cérebro, como a aprendizagem e a memória.

Após uma isquemia cerebral, as concentrações de glutamato no fluido cérebro-espinhal aumentam em poucos minutos. Cerca de 1 a cada 100 neurônios da zona de “penumbra”, envolvendo a zona focal enfartada, estão ainda oxigenados, porém seus receptores estão permanentemente ativados pelo glutamato que vaza do foco isquêmico. Similarmente, após a reperfusão seguinte à isquemia global, os neurônios são banhados em altas concentrações de glutamato suficiente para ativar seus receptores. Receptores tipo N-Metil-D-Aspartato (NMDA) são uma subclasse de receptores de glutamato que desempenham uma função essencial na aquisição de memória e permitem a entrada de sódio e cálcio no neurônio. Uma vez que gradientes de sódio transmembrana são necessários para direcionarem a reacumulação de glutamato para o interior da célula, e que a ativação do receptor NMDA dissipa este gradiente, o glutamato extracelular pode resultar em uma ativação crônica do receptor do tipo NMDA e um extensivo carregamento de cálcio no neurônio. Tal carregamento de cálcio para matriz celular inicia um aumento na geração de espécies reativas de oxigênio que levam à morte celular. Tal processo é conhecido como excitotoxidade glutamatérgica.

P.S. A imagem foi retirada do site http://cefaleias.com.br.

Por Renan Guedes


terça-feira, 27 de julho de 2010

DEFININDO ESPASTICIDADE

Antes de falar da espasticidade, conforme o título propõe, gostaria de explicar essa postagem. Recebi alguns emails pedindo posts apenas com definições de temas relacionados. De início, não achei uma boa idéia, por acreditar que seria extremamente superficial realizar apenas conceituações, mas acabei por ceder ao argumento que disse que é comum, em várias pessoas, a dificuldade de elaborar definições, sendo a partir daí que surge o famoso “sei, só não sei explicar”. Acredito que isso, na maioria dos casos, seja apenas conseqüência de leituras desatentas. Independentemente de tudo, vamos à primeira definição.

A espasticidade é definida como um estado de potencialização pré-sináptica dos neurônios motores alfa e gama. Essa potencialização seria mantida por um desequilíbrio entre as influências dos sistemas facilitador e inibidor, devido à lesão do sistema piramidal e conseqüente liberação de vias acessórias ao movimento (sistema extrapiramidal). Esse desequilíbrio conduziria à hiperatividade do sistema gama que por sua vez potencializaria a atividade alfamotora, aumentando o tônus.

No AVE, predomina nos músculos flexores dos membros superiores, com postura em adução e rotação interna do ombro, flexão do cotovelo, pronação do antebraço e flexão dos dedos; e nos músculos extensores dos membros inferiores, com extensão e rotação interna do quadril, extensão do joelho, flexão plantar e inversão do pé, e, se não tratada corretamente, pode levar a encurtamentos, contraturas, deformidades, subluxações, capsulites, síndrome do impacto, neuropatia, tendinite bicipital, limitação da amplitude de movimento, lesão de partes moles e dor; dificultando, assim, o processo de reabilitação dos indivíduos acometidos.

Não poderia deixar de lembrar que existe uma linha de pesquisa que diz que na fisiopatologia da espasticidade não existe nenhum componente do sistema nervoso central envolvido. Na minha opinião, a definição descrita ainda é a que melhor se aplica a essa hipertonia típica do AVE.

Por Renan Guedes

domingo, 25 de julho de 2010

FOI NOTÍCIA: MINI-STROKE VICTIMS 'MISS OUT ON VITAL CARE'


No último dia 21 de julho, saiu no site inglês BBC uma reportagem intitulada Mini-stroke victims 'miss out on vital care', de autoria do repórter Nick Triggle. Em seu texto, Nick torna pública uma auditoria realizada pelo The Royal College of Physicians and Vascular Society, que concluiu que a maioria dos pacientes com alto risco de acometimento por AVE não recebem o tratamento específico que necessitam. A auditoria avaliou 3000 pacientes que tiveram um Acidente Isquêmico Transitório (Mini-stroke) e observaram que apenas um terço realizou uma arterectomia da carótida para desobstrução de artérias, procedimento cirúrgico que pode evitar um a cada cinco acometimentos por AVE, evitando 500 mortes por ano. A reportagem trás ainda uma declaração de Nikki Hill, da Stroke Association, que afirmou que falta um longo caminho para que os indivíduos recebam um atendimento preventivo adequado.

Bem, não queria discutir, com este post, o quão devastador é o AVE no mundo, nem muito menos a eficácia da técnica cirúrgica descrita na reportagem, deixemos isso para um próximo. Gostaria de atentar para o fato que enquanto discutimos a melhor terapêutica para tratamento do AVE e de suas seqüelas, outros países, à exemplo da Inglaterra, discutem os procedimentos e programas de prevenção desta doença cerebrovascular. Queria deixar claro que não estou dizendo que não é importante discutir a terapêutica, até porque isso se faz necessário para encontrarmos a terapêutica mais eficaz no tratamento do AVE, mas devemos discutir o tratamento e a prevenção na mesma intensidade, caso contrário estaremos andando em círculos. É preciso rever conceitos!!!


Para ler a reportagem na íntegra clique aqui.

P.S. A foto foi retirada da própria reportagem.

Por Renan Guedes

sábado, 24 de julho de 2010

VALE A INDICAÇÃO (2)

O processo de reabilitação de um paciente com sequelas de AVE é, na maioria das vezes, um grande desafio, uma vez que temos que minimizar o impacto da patologia e aumentar a recuperação funcional do indivíduo acometido. Para fazermos o planejamento, evolução e modificação de um programa fisioterapêutico, faz-se necessário realizar avaliações acuradas. Por isso, gostaria de indicar a Motor Assessment Scale for Stroke (MAS), ou Escala de Avaliação Motora para AVE como alguns preferem.

A MAS, desenvolvida por Janet Carr em 1985, possui o objetivo de testar as intervenções realizadas nos indivíduos acometidos por AVE. Originalmente, a escala possui 9 itens, são eles: rolar de decúbito dorsal para decúbito lateral sobre o lado bom (item 1), passar de decúbito dorsal para sentado à beira do leito (item 2), equilíbrio sentado (item 3), passar de sentado para em pé (item 4), marcha (item 5), função de membro superior (item 6), movimentos da mão (item 7), atividades finas da mão (item 8) e tônus muscular (item 9). Em 1998, a escala foi modificada, omitindo-se o item tônus muscular, o qual é pouco confiável, ficando, a escala, com os 8 primeiros itens. Cada item é pontuado de zero a seis. A escala é de rápida aplicação (10 a 15 minutos), tem confiabilidade testagem-retestagem e de interavaliação.

Particularmente, acho a MAS uma ótima escala para acompanhamento da evolução de pacientes pós-AVE, sendo de grande utilidade tanto nas pesquisas longitudinais quanto nas transversais. Na prática clínica, devido a sua sensibilidade, a MAS pode ser utilizada como meio de estabelecer o ingresso do paciente a reabilitação e a melhor prática clínica a ser desenvolvida.

Para os mais curiosos que desejam conhecer um pouco mais sobre esta escala, deixo a referência de dois artigos (abaixo). O primeiro, em inglês, é o original de 1985 e o segundo, em português, trás uma versão traduzida. Os dois artigos têm livre acesso, basta apenas colocar seus nomes no senhor que tudo sabe (google).

Vale a indicação!!!

Referências:

CARR, J. H. et al. Investigation of a new motor assessment scale for stroke patients. Physical Therapy. 1985; 65(2): 175-80.

CONTE, A. L. F. et al. Confiabilidade, compreensão e aceitação da versão em português da Motor Assessment Scale em pacientes com acidente vascular encefálico. Revista Brasileira de Fisioterapia. 2009; 13(5): 405-11.


Por Renan Guedes

domingo, 18 de julho de 2010

ABRE ASPAS

Este blog tem por objetivo principal discutir temas relacionados à Fisioterapia Neurofuncional, mas gostaria de abrir aspas para tratar de um outro assunto. Nas últimas semanas tenho acompanhado dia após dia a situação de calamidade vivenciada pelas populações dos estados de Alagoas e Pernambuco atingidas pelas chuvas. Por isso, não poderia deixar de parabenizar todos aqueles que, de alguma forma, foram solidários e ajudaram a amenizar o caos deixado pelas águas. É impossível não se comover diante de uma tragédia que deixou milhares de pessoas sem moradias, sem acesso à serviços de saúde adequados, à alimentação, à educação, em resumo, sem condições dignas de vida. Mesmo comovido com a situação e indignado com alguns politiqueiros que se aproveitam da mesma, fico feliz diante da disposição dos brasileiros em ajudar.

Mas, gostaria de fazer uma pergunta: Será que apenas os povos atingidos pelas chuvas estão vivendo sem condições dignas? Nas últimas semanas, foi divulgado o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), no qual a Paraíba obteve 3,9 para as séries iniciais, 3,2 para as séries finais e 3,4 para o ensino médio, estando abaixo, em todos os índices, da meta nacional, meta esta que está muito abaixo das de outros países. Além de não ter uma educação básica de qualidade, a Paraíba possui cerca de 20% de analfabetismo, ou seja, cerca de 688.000 paraibanos não podem ler este texto.

Tornou-se público, ainda, um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas (Ipea), que divulgou que o índice de desigualdade da Paraíba é 0,58, a segunda pior distribuição de renda do país. Ainda segundo o instituto cerca de 50% dos paraibanos vivem até com meio salário mínimo. O Ipea afirmou, ainda, que o índice de pobreza extrema da Paraíba foi de 23%, isso equivale a cerca de 792.000 paraibanos vivendo na miséria nesse exato momento.

Bem, descrevi apenas alguns dados do meu estado, a Paraíba, mas vale ressaltar que ele não é o único, muitas outros vivenciam situação igual ou pior de calamidade, que se estende para outros setores, como o da saúde, que prefiro nem comentar. Por isso, faz-se necessário manter o espírito de solidariedade e enxergarmos que para vivenciarmos o caos não é preciso ir longe, basta apenas dá uma olhada ao nosso redor. Sejamos cidadãos, cumpramos com o nosso dever social, não apenas em um dia do ano mas em todos. É tempo de refletir!!!!


Por Renan Guedes

sábado, 17 de julho de 2010

VALE A INDICAÇÃO



No ano de 2010, o Centro de Estudos Avançados em Hemiplegia adotou o livro HEMIPLEGIA de Patrícia Davies (figura) para discussão em suas reuniões teóricas, de forma que a cada encontro abordamos um capítulo do livro.
Por isso, não poderia deixar de indicá-lo. Trata-se de uma obra indispensável para aqueles que atuam na reabilitação de pacientes acometidos por lesões cerebrais. Poderia aqui citar várias características ímpares presentes nas 636 páginas do livro, mas em se tratando de tal obra de Patrícia Davies seria pouco.
Mas deixo claro que não estou aqui venerando a autora, mas apenas reconhecendo um belíssimo trabalho. Queria ainda que todos ao lerem este ou outro livro qualquer lembrassem das palavras de Pirsig, que disse:

"Quando se lê uma obra nova ou quando se ouve alguém com aparente autoridade falar, é preciso ter consciência de que tudo pode soar como se DEUS ESTIVESSE FALANDO PARA ETERNIDADE, mas na realidade se trata APENAS DE UM HOMEM QUE FALA EM UM MOMENTO QUALQUER, EM UM LUGAR QUALQUER, SOB QUAISQUER CIRCUNSTÂNCIAS."

Por isso abramos os olhos, sejamos críticos, analisemos a nossa realidade e lembremos que não existe verdade absoluta, ou existe?

Fica aqui a indicação.

Por Renan Guedes
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